terça-feira, 14 de abril de 2009

Gota d'Água é a encenação da tragédia nacional



"Musical escrito por Chico Buarque em parceria com Paulo Pontes (1940 - 1976), Gota d'Água ganhou histórica montagem original em 1975, com Bibi Ferreira à frente, na pele da amarga Joana - a Medéia brasileira que, por ódio e por desespero, decide se vingar do amante sambista (Jasão) que a abandonara para se casar com a filha do dono de um conjunto habitacional da periferia. Tanto pelo primoroso texto escrito em versos como pelas boas músicas (em especial, Bem Querer, Basta um Dia e a intensa canção que batiza o musical), Gota d'Água ainda resiste como um dos títulos mais fortes da dramaturgia tupiniquim. Bem mais do que trazer o texto clássico de Eurípedes para a dura realidade nacional, os autores transpuseram para o palco a própria tragédia brasileira que pulsa firme nos bolsões de pobreza e injustiça social que corroem o país.

A remontagem de Gota d'Água, ora encenada por João Fonseca no palco do Teatro Glória, no Rio de Janeiro, desafia a densa aura mitológica que insiste em cercar a produção original de 1975, que durou até 1980. Trinta e dois anos depois da consagração de Bibi (existiu montagem paulista que passou brevemente pelo Rio, em 2006), Joana reapareceu nos palcos cariocas na pele de Izabella Bicalho, atriz que compensa a pouca idade para a personagem- a caracterização é insuficiente para torná-la uma quarentona - com a alta voltagem emocional necessária para encarnar o papel. Uma iluminação quente realça o (permanente) estado de ebulição em que se debatem os moradores e, em particular, a trágica Joana.

O numeroso elenco pulsa harmonioso no ritmo da música forte e atemporal de Chico Buarque. E o diretor João Fonseca tomou até a liberdade de acrescentar dois sucessos do compositor - Partido Alto (de 1972) e O Que Será - À Flor da Pele (de 1976) - que não constam do texto original, mas que se adequam perfeitamente ao universo da história. Partido Alto abre a encenação em intrincado jogo vocal que envolve todo o elenco. Mais tarde, O Que Será (À Flor da Pele) pontua a tensão da narrativa, ficando o ator e cantor Pedro Lima com a ingrata tarefa de reproduzir a divina introdução vocal da gravação original de Milton Nascimento, realizada para o disco Geraes (1976). Pedro Lima, assim como Thelmo Fernandes (Creonte), valoriza elenco homogêneo que contribui para o êxito da encenação. Há equilíbrio entre protagonistas e coadjuvantes.

No todo, Gota d'Água resiste muito bem nessa remontagem que, a despeito de uma ou outra liberdade poética, tem vigor e honra o musical de Chico Buarque e Paulo Pontes. É o Brasil real em cena".

Mauro Ferreira - Blog Notas Musicais.

Publicada em 16/11/2007.


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